[dimanche, janvier 15, 2006]
 
o problema é que, às vezes, solteira e morando sozinha, surge um buraco dentro de casa, e não dá vontade de voltar pra casa, pra não cair no buraco.
num passe de magia, os cem metros quadrados do apartamento reduzem-se ao banheiro e ao armário; entro, tomo banho, me visto e pulo fora, caindo, noite após noite, na rua na gandaia, onde faço tudo demais, porque minimalismo é lindo nas obras do mondrian ou do philip glass, mas, na vida, bom mesmo é o excesso, barroco life style, um pé na jaca outro no rococó.
então chega uma hora em que a música fica tão alta que dá vontade de abaixar o som. como se o abuso de sexo matasse o desejo, as jean baudrillard said. como se as inpumeras ressacas dessem vontade de beber menos. como se o caos gerasse uma espécie de ordem.
subitamente, a paz. não sei donde nem porque ela veio, mas o fato é que existe o ying/yang, os movimentos literários, as mudanças das estações e, talvez por isso, seja apenas alternância dos módulos: ora festa ora casa, ora inquietude ora tranqüilidade, ora ação ora contemplação. mas no frigir dos ovos, desmanchou-se o peso da minha ansiedade. vivi tanto, em tão pouco tempo, e com tamanha intensidade, que a urgência desfez-se. agora, é possível respirar calma e profundamente.
hora de arrumar a casa. comprar alguma coisa nova, mudar os móveis ou uma planta de lugar. hora de ler todos aqueles livros que ficaram meses sobre a estante. assistir dvd tomando chazinho na cama. ou não fazer nada. driblar, feito um garrincha contemporâneo, a tirania da diversão. ficar de bobeira, perder tempo vendo como as folhas das árvores tornam-se mais verdinhas depois da chuva. tratar bem os sentidos e visitar uma exposição. fazer uma viagem pro litoral sem avisar ninguém. voltar da viagem e não abrir o email, mas ir a uma cinemateca e ver um filme estranho e antigo. hora de aproveitar, enquanto não tenho filhos, família, o luxo da solidão.