[ parar. ]
densa. ela era densa. achava ella fitzgerald secundária. gostava mesmo de billie holiday, no talo. nada de clash. era fã de sex pistols, no talo. era densa e radical. nada de antunes. era zé celso, teatro evocação, cerimônia, culto. ela não lia apenas guimarães. ia atrás de finnegans wake, de james joyce, queria entendê-lo, perdia horas debruçada sobre ele, palavra por palavra, montava um quebra-cabeça em busca dos sentimentos, porque sabia que naquele caso ler era sentir, não entender, e por que ficava obcecada quando começava algo? era de touro. persistência, a sua palavra. mas quando a insistência vira doença, uma obsessão, a persistência deve ser tratada como uma neurose. as amigas sempre falam isso dela: "você precisa relaxar mais". seu irmão sempre fala isso dela: "você precisa ir mais à praia". praia?! logo agora que tem mostra de cinema, festival de animação, de documentário, de arte eletrônica, do minuto, bienal da arte, de livro, tantas palestras e cursos... parar? ela não pode parar!
mas parou um dia para se perguntar: "do que estou atrás?" e sofreu quando vislumbrou: "estou correndo atrás de algo ou fugindo de?" e parou. sofre, sofreu, sofre. ouviu jeff buckley, no talo, e chorou. "do que estou fugindo? da minha própria intensidade. eu queria tanto ser de outro jeito..."