dói. dói. e dói.
essas incertezas constantes, essas vontades mais que repentinas, que continuam a incomodar por aqui.
porque parece que nada é o bastante...
... perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. essa terceira perna eu perdi. e voltei a ser uma pessoa que nunca fui. voltei a ter o que nunca tive: epenas as duas pernas. sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada por que perdi o que não precisava? ... é difícil perder-se. é tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja denovo a mentira que eu vivo. até agora, achar-me era já ter uma idéia da pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. a idéia que eu fazia da pessoa vinha da minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. mas, e agora? estarei mais livre? ... e nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê... mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação a ser? e no entanto, não há outro caminho. como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! por que é que ver é uma tal desorganização?...
eu quero ter acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e entra...