
[ algumas pessoas são imediatamente esquecidas quando partem.
partem para onde? para onde eu irei quando morrer? os que têm filhos vão para os porta-retratos. viram mártires, porque os mortos são santos. os mortos que têm família tornam-se flores num jarro. retratos pintados à mão. tornam-se algumas histórias engraçadas ou comoventes. os mortos são dia de finados, dia de aniversário, natal e nada mais. mas já é alguma coisa. mesmo que isso seja tudo o que uma pessoa ganha por vivido setenta anos ou mais, é alguma coisa. e para mim, o que sobrará de minha existência quando ela não mais existir? isso! não mais existirá. nada. nenhum filho ingrato a curar suas culpas, indo colocar flores no jarro sobre a minha lápide. nenhum amor sofrendo, pela lembrança de minha juventude. nem amigos contando histórias sobre porres inesquecíveis. nada. um dia encontrarão algumas fotos e cartões-postais numa caixa de madeira velha. encontrarão restos de mim, em papel e anotações. ]